Teoria da Decisão

A Teoria da Decisão, proposta por Herbert Alexander Simon, revolucionou a compreensão sobre como decisões são tomadas na prática. Contrariando os modelos econômicos clássicos que assumiam um agente racional com informação completa (homo economicus), Simon introduziu o conceito de Racionalidade Limitada (Bounded Rationality). Esta abordagem reconhece que decisores humanos e sistemas automatizados operam sob restrições severas: limitações cognitivas, informações incompletas e pressão temporal.

Este trabalho explora como a teoria de Simon fundamenta os Sistemas de Apoio à Decisão (SAD) modernos e examina os desafios éticos quando esses princípios são implementados em algoritmos de Inteligência Artificial.

Herbert A. Simon

Foto do Herbet A. Simon em preto em branco, atrás dele há um fundo com livros desfocado.
Figura 1- Herbet A. Simon

Herbert Alexander Simon (1916–2001) foi pioneiro em múltiplas áreas: economia, psicologia cognitiva e ciência da computação. Laureado com o Prêmio Nobel de Ciências Econômicas em 1978, Simon desenvolveu conceitos fundamentais para os Sistemas de Apoio à Decisão.

O Conceito de Racionalidade Limitada

Simon identificou três restrições fundamentais que limitam a racionalidade:

      • Informações Incompletas: O custo e tempo para obter informação completa são, na prática, proibitivos

      • Limitações Cognitivas: A capacidade de processamento mental (memória, atenção) é restrita

      • Restrições de Recursos: Tempo, orçamento e energia são escassos

Diante dessas limitações, surge o conceito de Satisficing (junção de “satisfy” + “suffice”): buscar uma solução satisfatória, não a ótima. Os decisores avaliam alternativas sequencialmente e escolhem a primeira que atende seus critérios mínimos.

As Fases do Processo Decisório

Simon desmembrou o processo de decisão em fases, que não são lineares, mas frequentemente iterativas e cíclicas. A racionalidade limitada impacta cada uma delas:

  • Fase de Inteligência (Intelligence): Prospecção do ambiente para identificar problemas ou oportunidades. Em SAD, corresponde aos módulos de coleta e monitoramento de dados.

  • Fase de Projeto (Design): Desenvolvimento e análise de possíveis soluções. Em SAD, envolve algoritmos de simulação e modelagem de cenários.

  • Fase de Escolha (Choice): Seleção da alternativa satisfatória. Em SAD, pode

incluir sistemas de recomendação e análise multicritério.

  • Fase de Implementação e Avaliação (Implementation & Review): Execução e monitoramento dos resultados. Em SAD, corresponde aos módulos de feedback que ajustam parâmetros futuros.

Fluxograma detalhando o pensamento da decisão, indo de problema, prospecção, concepção e decisão
Figura 2- Fases do processo decisório

Implicações e Aplicações

A teoria de Simon tem implicações profundas em múltiplos domínios:

  • Gestão Organizacional: Explica por que empresas não operam com eficiência perfeita, mas buscam metas satisfatórias de lucro, crescimento e participação de mercado, adaptando-se ao ambiente de forma reativa.

  • Comportamento do Consumidor: Um consumidor em um supermercado raramente analisa todos os produtos, preços e ingredientes. Ele aplica heurísticas (lealdade à marca, preço mais baixo, embalagem familiar) e escolhe um produto que satisfaça sua necessidade imediata.

  • Estudos Empíricos: O trabalho de Macedo, Dantas e Oliveira (2011) é um excelente exemplo. Ao analisar o comportamento de contadores, o estudo revelou que, sob pressão e incerteza, esses profissionais recorrem a heurísticas (como Ancoragem e Disponibilidade) que geram vieses, comprometendo a objetividade técnica da decisão contábil.

Desafios Éticos

Quando a racionalidade limitada é codificada em algoritmos, vieses cognitivos individuais transformam-se em riscos éticos sistêmicos. Três categorias principais surgem:

Problema: Algoritmos treinados com dados históricos que refletem desigualdades sociais perpetuam esses padrões.

Exemplo em SAD: Sistemas de análise de crédito que utilizam histórico de pagamentos podem discriminar grupos com menor acesso histórico ao sistema bancário. O algoritmo aprende padrões enviesados e os trata como “regras válidas”.

A "Caixa Preta" e Falta de Transparência

Problema: Modelos complexos de aprendizado profundo tomam decisões não-interpretáveis por humanos.

Impacto em SAD: Gerentes que dependem de sistemas de recomendação estratégica não conseguem explicar por que determinada decisão foi sugerida, minando confiança e impossibilitando auditorias.

Responsabilidade Difusa (Accountability)

Problema: Quando um sistema automatizado erra, a responsabilidade é diluída entre desenvolvedores, implementadores e a própria IA.

 Desafio em SAD: Organizações que delegam decisões críticas a sistemas algorítmicos enfrentam dilemas legais e éticos quando resultados prejudiciais ocorrem.

O Desafio da Justiça: O que as Pessoas Consideram Justo?

Mesmo que vieses técnicos fossem eliminados, persiste um desafio fundamental: não existe consenso universal sobre o que é “justo”.

O Caso COMPAS

O estudo de Grgić-Hlača et al. (2018) analisou a percepção pública sobre o sistema COMPAS, usado para prever risco de reincidência criminal nos EUA. A pesquisa revelou que cidadãos discordam profundamente sobre quais informações são “justas” para usar em decisões algorítmicas.

As Oito Dimensões da Justiça Percebida

O estudo identificou oito propriedades que as pessoas avaliam implicitamente:

algorítmicos enfrentam dilemas legais e éticos quando resultados prejudiciais ocorrem.

Figura 3 - Tabela Justiça

A Conexão com Simon

A razão da discordância pública é a própria racionalidade limitada: pessoas operam com informações incompletas e modelos mentais diferentes sobre causalidade. Não há modelo único de mundo. Portanto, criar um SAD “justo” não é apenas desafio técnico, mas social.

Conclusão

A Teoria da Decisão de Herbert Simon permanece fundamental para o desenvolvimento de Sistemas de Apoio à Decisão eficazes e éticos. Ao reconhecer que decisores humanos operam sob racionalidade limitada, SAD podem ser projetados para:

  • Estruturar informações de forma a minimizar sobrecarga cognitiva

  • Transparência: Explicar como recomendações são geradas

  • Auditabilidade: Permitir verificação de decisões algorítmicas

  • Flexibilidade: Reconhecer que diferentes contextos exigem diferentes critérios de “satisfação”

O desafio do século XXI é desenvolver sistemas que amplifiquem as capacidades humanas de decisão sem automatizar e amplificar nossos vieses. Isso exige não apenas excelência técnica, mas governança ética fundamentada na compreensão de como realmente decidimos.

Referências

MACEDO, M. A. S.; DANTAS, J. A.; OLIVEIRA, J. R. S. Comportamento decisório e racionalidade limitada: uma análise do processo de decisão contábil. Revista Ambiente Contábil, v. 3, n. 1, p. 68–83, 2011.

SIMON, H. A. A racionalidade do processo decisório em empresas. Revista Multipl., v. 1, n. 1, 1980.

SIMON, H. A. Administrative Behavior: A Study of Decision-Making Processes in Administrative Organization. 4ª ed. The Free Press, 1997.

STANFORD ENCYCLOPEDIA OF PHILOSOPHY. Bounded Rationality. 2018. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/bounded-rationality/. Acesso em: 27 de outubro de 2025.

THE DECISION LAB. Bounded Rationality. Disponível em: https://thedecisionlab.com/biases/bounded-rationality. Acesso em: 27 de outubro de 2025.

Figuras:

WIESENTHAL, H. In Memoriam Herbert A. Simon. Disponível em: https://www.hwiesenthal.de/simon/. Acesso em: 1 de novembro de 2025.

PD Herbert. Blog PD Herbert, 08 dez. 2006. Disponível em: https://pdherbert.blogspot.com/2010_10_21_archive.html. Acesso em: 01 nov de novembro de 2025.